Sala de Imprensa

Claudio Frischtak

Por que transitar para um novo modelo, se a fronteira de consumo de bens e serviços se expande de forma praticamente ininterrupta há quase uma década? Foi a partir dessa pergunta que o diretor do International Growth Center, Claudio Frischtak, centrou sua apresentação especial sob o tema “Transição para a economia do conhecimento”, encerrando o primeiro dia do XXV Fórum Nacional. Para ele, o Brasil vive um momento de definição e há pouco tempo para escolher o caminho certo: o da economia do conhecimento e da inovação sem fronteiras.

O professor admitiu que o País experimentou nas duas últimas décadas ganhos pronunciados em termos de estabilidade macroeconômica, redução da desigualdade e da pobreza, e melhoria nas condições de trabalho e de acesso aos bens de consumo por camadas mais amplas da população – com a ascensão da chamada nova classe média. Contudo, na avaliação de Frischtak, esses ganhos ainda não podem ser caracterizados como irreversíveis. “A experiência histórica mostra que acertos cumulativos dependem da qualidade das políticas de governo, e da capacidade da sociedade fazer escolhas que levem a soluções duradouras e a uma trajetória sustentável de desenvolvimento”, advertiu.

Em sua opinião, há três aspectos interconectados que põem em xeque o modelo atual: o esgarçamento do tecido produtivo diante da elevação sistemática dos custos, o aumento dos custos impulsionado pela ação do Estado e a expansão do consumo de bens individuais, em contraposição ao precário acesso aos bens coletivos.

O professor alerta que o modelo redistributivo está esgotado na sua raiz, pois implica a perda progressiva de competitividade da economia brasileira. O desafio é superá-lo, mantendo seus aspectos virtuosos. O novo modelo diz respeito a uma questão de precedência: a expansão da fronteira do consumo deve seguir – e ser impulsionada pelo – deslocamento da fronteira de oportunidades. Para Frischtak, esta se move na exata medida da criação de novas ideias, produtos e formas de gerir e fazer. “Em resumo, tudo cresce com base no conhecimento, uma função de uma combinação de capital físico e capital intelectual”, sintetizou.

Ele ressaltou ainda que o Brasil permanece distante da fronteira da conectividade. “Produzir conhecimento útil, criar e inovar depende do acesso à informação, de se conectar a times e organizações e a trabalhar em rede”, pontuou. Frischtak destacou que o Brasil avançou na direção da fronteira da ciência, mas não em relação à fronteira da inovação (medida pelo índice de patenteamento, ainda baixo no País). Outro ponto fraco seria a baixíssima produtividade em P&D no Brasil, na comparação com os países que estão na fronteira dessa produção de conhecimento, como Suíça e Espanha, ou na fronteira da conectividade, como Coreia do Sul e Japão.

Por fim, Frischtak alertou que o Brasil necessita de um conjunto de iniciativas com dimensões essenciais que incluem: metas de conectividade consistentes com uma nova economia, mudanças estruturais para progressivamente ampliar a participação das áreas de alto desempenho em ciência e engenharia, deslocando seus pós-graduandos para as empresas, e facilitando seu acesso aos recursos e serviços que trafegam nas redes globais de P&D. Além disso, uma revisão das políticas e regulações claramente desatualizadas e de complexidade nada razoável, que tolhem o trabalho científico e tecnológico do País.