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Anais do 31° Fórum Nacional (Maio/2019). INAE, Rio de Janeiro, 2019 [XXXI FÓRUM NACIONAL – maio 2019].

O choro incontido do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao recordar o ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, fundador do Fórum Nacional, e sua marca registrada de respeito à diversidade de ideias emocionou a todos e deu a tônica da 31ª Edição do Fórum, realizado nos dias 9 e 10 de maio, no Rio de Janeiro. A sessão foi marcada pela saudade do seu idealizador e pela esperança de um Brasil melhor, como ele tanto sonhava, expressa na perseguição das reformas estruturais, no esforço para dinamizar a infraestrutura com investimentos privados e nos muitos exemplos de inovação brasileira no painel dedicado exclusivamente à tecnologia.

Foi o primeiro Fórum Nacional sem a presença entre nós do homem que, como ministro do Planejamento de dois governos, traçou os rumos do desenvolvimento brasileiro de 1969 a 1979, justamente o período de maior crescimento da economia do país, com ênfase na construção da infraestrutura e na expansão de indústrias básicas, como a siderúrgica e a petroquímica. João Paulo se foi no dia 19 de fevereiro, aos 87 anos, e a emoção de Guedes sintetizou a marca indelével deixada pelo homem que, em 1988, preocupado em reencontrar os caminhos do desenvolvimento que o país perdera, criou o Fórum que se tornaria uma referência no debate de ideias socioeconômicas no Brasil.

“Eu só tenho memórias boas, não tenho nenhuma memória ruim do ministro João Paulo”, disse Guedes, ressaltando que “o aprendizado com ele do exercício da tolerância” tem sido agora uma ferramenta primordial para enfrentar o desafio de tentar recolocar a economia brasileira nos eixos. “Quando estivemos juntos no Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), ele era o que chegava mais cedo e saía mais tarde, por pura doação ao país”, contou, lembrando que a instituição não poderia lhe pagar um salário compatível com tal dedicação.

A reverência do ministro da Economia, feita na sessão de encerramento, no dia 10, coroou uma sucessão de justas homenagens a João Paulo dos Reis Velloso iniciadas na sessão de abertura do 31º Fórum, no dia 9.

Coube ao presidente do Fórum Nacional, Raul Velloso, dar início às homenagens ao fundador do Fórum e do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), seu irmão mais velho e parceiro de discussões das questões econômicas e estruturais do Brasil.

Raul Velloso ressaltou a sensibilidade do irmão João Paulo em relação ao tema que hoje mais aflige a sociedade brasileira e que absorve a maior parte dos formuladores de política econômica: como sanear as finanças públicas do país. O desafio é encontrar caminhos para estancar a sangria, transmitindo confiança para que o setor privado volte a investir e, ao mesmo tempo, assegurar os investimentos que só o setor público pode fazer, de modo a não coloquem em risco o direito à aposentadoria das futuras gerações.

Na sequência, foram exibidos vídeos nos quais três dos mais destacados e ainda vivos ex-ministros da Fazenda do país enviaram suas homenagens a João Paulo por não terem podido fazê-las pessoalmente por razões diversas. Delfim Netto, Ernane Galvêas e Marcílio Marques Moreira deram depoimentos emocionantes.

DELFIM NETTO, 91 anos, descreveu o fundador do Fórum Nacional como “um grande brasileiro” e um amigo leal: “Velloso foi um grande brasileiro e o Brasil deve muito a ele. Um amigo leal, fiel, inteligente, que deixou muitas lembranças. E durante muito tempo estivemos olhando por uma economia social de mercado. Ele nos deixou o Ipea! Eu tenho muita saudade do Velloso!”, disse emocionado.

ERNANE GALVÊAS, 96 anos, foi outro contemporâneo de João Paulo a se emocionar ao homenageá-lo: “Eu tenho do João Paulo a melhor de todas as lembranças. Trabalhamos juntos, estudamos juntos e eu me sinto responsável pela ascensão da carreira dele. Eu dava aula de política monetária e perguntei a ele se queria ir para o Ministério da Fazenda, no gabinete do [Walter] Moreira Salles. Ele disse que sim e assim que começou a trabalhar conosco pediu para fazer um curso no exterior e foi para Yale, New Haven (EUA), onde foi um aluno brilhante e é citado até hoje. Os documentos estão aí para provar que o Velloso trabalhou pelo país de uma maneira feroz. E está aí o Fórum para dar continuidade a ele. Eu considero o Velloso um irmão, mais do que um amigo”, disse Galvêas.

MARCÍLIO MARQUES MOREIRA, 87 anos, destacou a perseverança do ministro: “Conheci João Paulo em 1965, ele recém-chegado de Yale e eu também recém-chegado, de Washington. João Paulo era uma figura extraordinária. Sua primeira virtude era a perseverança: não desanimava nunca – com seu sorriso amável, conseguia ver longe e olhar para o futuro. Ultimamente estava entusiasmado com as novas tecnologias e sempre perseverante no que estava trabalhando, com dedicação, inteligência e método”.

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