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Luiz Eduardo SoaresO eixo comum, sob a diversidade de reivindicações dos protestos que tomam as principais metrópoles do País desde junho, é a proclamação indignada do colapso da representação política. Em poucas palavras, os manifestantes não acreditam em partidos e políticos que renovam seus mandatos no mercado de votos, sem perceber que o mero respeito às regras do jogo não é suficiente para manter a democracia de pé.

Esta é a avaliação feita pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em sua contribuição às discussões da Sessão Especial do Fórum Nacional, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro.

Luiz Eduardo Soares lembra que há no Brasil o Estado Democrático de Direito, desde a promulgação da Constituição, em 1988, depois de 21 anos de ditadura militar, seguidos por três anos híbridos. Porém, em sua opinião, a institucionalidade democrática passou a ser vista pela maior parte da sociedade como uma carcaça oca, uma forma sem conteúdo, tomada por agentes políticos inescrupulosos.

“O endosso formal a parlamentares e governantes pelo voto, em um país onde é obrigatório votar, não garante legitimidade, do ponto de vista da percepção social. A ruína da representação vinha ocorrendo sem que as lideranças dessem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abrira entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. O que farão, agora?”, questiona o antropólogo e ex-secretário Nacional de Segurança.

Para Luiz Eduardo Soares, a marca do movimento é a intensidade. “Os protestos se realizam na linguagem dos excessos: muita gente, todo dia, todos os temas – e sempre há a minoria exaltada e violenta que depreda prédios públicos”, disse o professor, para quem os protestos também levaram a reboque alguns profissionais do furto e do roubo, e os que se divertem destruindo sem propósito.

“Por que a paixão e a intensidade? Ouso uma hipótese: os elos de contiguidade simbólica e política conectam problemas entre si, acentuando sua característica permanente”, acredita. Afinal, a conversa sobre cidadania é ou não para valer?