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As testemunhas. INAE, Rio de Janeiro, 2013 [XXV Fórum Nacional (Jubileu de Prata – 1988/2013)].

Não há tabus para o Fórum Nacional. Ele já realizou painéis sobre política de cinema, a condição da mulher, o “defeito de cor”, o amor em tempos de desamor – e tem o universo como seu campo de discussão e propostas.

Na Sessão de Encerramento do XXV Fórum (2013), inovando mais uma vez, procurou-se captar, através de “testemunhas” – testemunhas de seu tempo e, ao mesmo tempo, exemplos de vida, com força e carisma para extrair múltiplas lições do passado.

A primeira dessas testemunhas, o brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909), notabilizou-se, como revela Walnice Nogueira Galvão, pela revelação da verdade sobre a guerra de Canudos. Em Os sertões, seu livro vingador, Euclides, um militar, considera o massacre de Canudos pelo Exército um crime. E, ao reivindicar a humanidade negada aos excluídos, reafirma seu maior legado à posteridade.

Ao traçar o perfil de Francisco de Assis (1182-1226), Frei Vitorio Mazzuno vê nele um modelo do humano, com sua mística simples, uma vida em que o finito evoca o infinito. Francisco despoja-se de ricas vestes e veste a túnica simples dos camponeses e mendigos. E ele penitente no sentido medieval: o que evita os excessos do egoísmo, da ostentação, dos apegos materiais, das palavras banais, da impaciência, da intolerância. Ingressando nos mistérios do sagrado. Vivendo intensamente a fraternidade: o convívio universal com tudo que é vivo. Francisco de Assis foi um sonhador e ao mesmo tempo um realizador. Não é um santo do passado, mas de hoje e amanhã, acolhendo belas esperanças.

Coube a Luiz Paulo Horta depor sobre Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1790), para ele o mais misterioso dos gênios. Afirma ser difícil classificá-lo. É bom representante da música da segunda metade do século XVIII, quando o classicismo já se amaneirava no rococó. A beleza perfeita de suas obras não foi fruto de acaso: ele trabalhou como poucos. Mas sua vida não se deduz de suas obras. Ele está dentro e fora de sua época. Passa a sensação de uma arte intemporal cuja grande mensagem é a de que, sendo livres, podemos sempre alcançar a beleza, eterno mistério da condição humana.

Para o Pe. Paul A. Schweitzer a vida de Damião de Molokai (1840-1889) pode nos servir de inspiração e desafio. Tendo conhecimentos superiores de teologia e medicina, ele foi enviado como missionário As ilhas do Havaí. Aquele arquipélago sofria de várias epidemias, entre elas a lepra, obrigando o governo local a criar na ilha de Molokai uma colônia de doentes. Levado para aquela ilha, apresentado aos colonos doentes como disposto a viver ou morrer com eles, comportou-se como missionário, médico e líder local. O previsível aconteceu: Damião contraiu a lepra. Corajoso, continuou em seu trabalho, somente reduzindo-lhe o ritmo com o avanço da enfermidade. Ele morreu, mas sua saga teve continuidade e seu exemplo frutificou. Ele foi canonizado em 2009 pela Igreja Católica. Todos os anos, no dia 15 de abril, o estado americano do Havaí celebra o feriado Father Damien Day.

Simone Weil (1909-1943), filósofa e escritora francesa, é, para Maria Clara Lucchetti Bingemer, uma mística e testemunha da Verdade. Ela vê em Simone Weil uma cristã e pensadora diferente. Mulher de seu tempo, de origem judaica e cultura francesa, viveu experiência mística aberta ao pluralismo e em diálogo vivo com o ateísmo e o agnosticismo, frutos da secularização. Ela falava de seu tempo. Mas suas palavras são muito adequadas ao nosso.

Segundo Lucia Cavalcante Reis Arruda, a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) também testemunhou os “tempos sombrios” da Europa da primeira metade do século passado. Ela acompanhou de perto, ao longo desses anos, a experiência de poetas, filósofos, literatos que vivenciaram muitas adversidades. Arendt relata, a partir de suas próprias vivências, a simplicidade audaciosa de João XXIII; o sentido de responsabilidade em Jaspers; a necessidade de um padrão ético contido no “o que faremos então?”, de Hermann Broch; a consequência de voltar a “pensar alguma coisa” ao modo de Heidegger; a trajetória recuperada para a história de Rosa Luxemburgo; a liberdade, embora ameaçada, do homem de letras Walter Benjamin; o encarar o mundo de frente, embora por ele rejeitado, do poeta Randal Jarrell.

Viver em tempos sombrios é um desafio a capacidade de reação e criatividade. Somente elas apontam novos caminhos, construídos na adversidade e sustentados pela esperança.

Sumário

Prefácio
João Paulo dos Reis Velloso

Euclides da Cunha: testemunhando o massacre
Walnice Nogueira Galvão

Francisco de Assis, Il Poverello: modelo referencial
humano
Frei Vitório Mazzuco, O.F.M.

Wolfgang Amadeus Mozart – o homem e o compositor
(1756-1790)
Luiz Paulo Horta

Damião de Molokai: modelo e desafio
Paul A. Schweitzer, S.J.

Simone Weil: testemunha da Verdade
Maria Clara Lucchetti Bingemer

Hannah Arendt: a testemunha dos tempos sombrios
Lucia Cavalcante Reis Arruda