Por que o Brasil cresce pouco?

Marcos MendesAs causas e as consequências do baixo crescimento da economia brasileira foram o tema da última palestra da manhã do segundo dia do XXVI Fórum Nacional. A apresentação coube ao economista Marcos Mendes, autor do livro “Por que o Brasil cresce pouco?”. “Quando me refiro ao baixo crescimento, estou falando de uma análise histórica desde 1985”, frisou Mendes.

Na avaliação do economista, há pelo menos dez causas imediatas para o pequeno crescimento, sempre citadas por seus colegas, entre estas o gasto público de má qualidade, a excessiva carga tributária, a emperrada legislação trabalhista, a infraestrutura ruim (rodovias, portos, internet, telefonia) e o Judiciário “caro, lento e imprevisível”, nas palavras do economista. “No entanto, há uma causa mais profunda do crescimento insatisfatório, que é a alta desigualdade com ampla democracia”, explicou o professor, comentando que, na disputa por benefícios entre distintos grupos sociais, a redistribuição para os ricos e para a classe média desfaz parte da redução da desigualdade promovida pela redistribuição para os pobres, o que tem como resultado o baixo crescimento acompanhado do que chamou de “redistribuição dissipativa”.

“A pressão de grupos sociais muito distintos coloca a política econômica do governo em xeque a todo momento”, acrescentou. Para Mendes, o caminho para um ciclo virtuoso que rompa de vez com o baixo crescimento e a redução da desigualdade passa pela Reforma da Previdência, pela educação de qualidade e por gastos em infraestrutura “para os mais pobres”, como nas áreas de saneamento e transporte público, por exemplo. “Precisamos priorizar reformas que tenham impacto direto na redistribuição de renda”, concluiu.

As travas do crescimento econômico

Ernane GalvêasO Brasil está caminhando com o freio de mão puxado. Foi o que afirmou o ex-ministro Ernane Galvêas, no segundo dia de debates do XXVI Fórum Nacional. “Estamos fadados a um crescimento de 2% a 2,5%, quando o ideal seria crescer entre 4% e 5%”. Em sua palestra, Galvêas discutiu o diagnóstico e buscou soluções para destravar o que chamou de “armadilha do baixo crescimento”.

Como entraves ao processo de pleno crescimento do País, o ex-ministro citou o Estado obeso, que se apropria de 40% do PIB nacional; a pesada carga tributária imposta à sociedade; a infraestrutura deficiente, que mina a produtividade e a competitividade da produção agrícola e industrial; e uma gestão pública desorientada que, em sua opinião, “está desestruturando a Petrobras e a Eletrobrás”. O resultado disso tudo, em sua avaliação, é o baixo nível de investimentos, inferior a 20% do PIB.

“Para crescermos 5%, com uma taxa técnica de retorno de 20%, precisamos investir 25% do PIB”, ensina Galvêas. Uma vez que os investimentos são construídos com base em poupança e como o setor público vem se apropriando sistematicamente de 40% da renda nacional (sugando 38% da renda do setor privado via carga tributária e 2% por meio de endividamento, vendendo títulos públicos ao setor privado), o nó parece difícil de ser desatado a menos que haja vontade política do governo. “Os otimistas depositam as fichas agora na exploração do pré-sal como salvação de todos os problemas do País, mas eu seria mais cauteloso”, disse.

A boa notícia destacada pelo ex-ministro é que, se em 2012 registrou-se uma queda de 4%, no ano passado houve recuperação nos investimentos, com crescimento de 6,2%. “Os investimentos cresceram mais que o consumo”, explicou Galvêas, hoje consultor da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “Destravar o crescimento significa aumentar os investimentos e aumentar a poupança, ou seja, reduzir o tamanho do Estado e, consequentemente, a carga tributária e a burocracia fiscal”, sintetizou. O consultor propôs que para aumentar a velocidade do crescimento não é preciso pisar no acelerador, basta afrouxar o freio de mão.

Quebrar o termômetro não reduz a febre

Raul VellosoO economista e consultor Raul Velloso criticou os modelos de outorga e concessão de serviços públicos adotados pelo governo, desde 2003, além de alertar para uma previsível explosão da conta de pagamentos do País, se não forem implantadas as reformas propostas por especialistas.

Raul Velloso participou do segundo dia do XXVI Fórum Nacional, na Caixa Cultural, no Centro do Rio, quando fez alguns alertas: “A eleição está aí e quando tem eleição ninguém faz nada para arrumar a casa”, lamentou, ao apontar a estagnação da taxa de crescimento provocada por equívocos na política econômica do governo, além da modicidade tarifária sem correspondência com os custos como exemplos a serem urgentemente corrigidos.

“Os preços artificialmente baixos estimulam o consumo e afastam o investimento”, criticou o economista, citando a política de tarifas do setor elétrico que, em sua opinião, aumenta o custo nos momentos de forte demanda e redução da oferta por causa do baixo índice de chuva, elevando de R$ 100 para R$ 800 o valor da tarifa horária paga pela energia elétrica.

“A hidrologia fortemente desfavorável escancara os problemas. O governo não quer repassar custos para não perder votos, faz contas estranhas e vai levando, só que um dia a conta terá que ser paga”, alerta Velloso.

Ele também apontou falhas no modelo de concessão de serviços públicos, como as rodovias, que, em sua opinião, garantem transporte sob alto nível de estresse e sob a fórmula do “barato que sai caro”.

“Na segunda etapa das concessões, sem pré-qualificação, o outorgado deixou de entregar o prometido, não houve investimentos”, lamentou, acrescentando: “Na terceira fase, sem plano de negócios, populismo tarifário e com contratos vagos, vieram os negócios insustentáveis, com alto risco regulatório, que impede a sua expansão”, alertou, ironizando com o que chamou de contabilidade criativa: “Quebrar o termômetro não diminui a febre”.

Insegurança jurídica emperra o crescimento

José Augusto Coelho FernandesA ausência de regras e a insegurança jurídica em diversos setores da economia amplificam o momento de incerteza e de queda de confiança do empresariado e de investidores. Foi o que alertou o diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Coelho Fernandes, em sua apresentação no XXVI Fórum Nacional. “Investir em educação e tecnologia é fundamental”, pontuou.

Ele enfatizou a importância que estrangeiros dão à educação ao relembrar quando ciceroneou a visita do autor americano David Landes ao Brasil, que logo ao chegar pediu a ele para conhecer uma escola pública do Rio de Janeiro. A citação ao autor de “O Prometeu desacorrentado” surgiu como reforço ao subtítulo do Fórum, “Desacorrentando Prometeu”.

O sistema de gestão das empresas também merece atenção, caso o País queira seguir o rumo do crescimento sustentado. “Mudanças nos salários, na produtividade, nos custos de energia e na taxa de câmbio tiveram efeitos expressivos sobre a estrutura de custo da indústria brasileira”, afirmou, acrescentando que isso gerou perda de competitividade do País em relação às demais nações. “É necessário adaptar a política industrial às mudanças no sistema de produção, ainda extremamente arraigada aos anos 60 e 70”, disse. “Se naquela década perdíamos a competição por investimentos para o México, hoje estamos perdendo essa competição para um número cada vez maior de países”, lamentou.

José Augusto sustentou a ideia de que a criação de marcos regulatórios setoriais e a segurança jurídica, somados à modernização da política industrial, são a chave para a retomada do crescimento econômico.

Eficiência em forma de superávit comercial

Nelson SalgadoO vice-presidente de Relações Institucionais da Embraer, Nelson Salgado, questionou nesta terça-feira, 13, no Rio de Janeiro, a participação brasileira no mercado global. “Será que a participação do Brasil nesse cenário é hoje como poderia ser?”, disse Salgado, ao apontar alguns gargalos enfrentados pela economia do País, durante o XXVI Fórum Nacional, na sede da Caixa Cultural, no Centro do Rio.

Nelson Salgado citou o modelo de disputa de mercado da Embraer, com foco total no cliente e a busca pela cada vez maior eficiência para apontar um dos desafios prioritários para uma melhor performance econômica nacional.

“Investimos aproximadamente US$ 650 milhões em 2013, o que correspondeu a mais de 10% da receita deste ano, com produtos cada vez mais inovadores. Precisamos criar mecanismos que nos levem a uma maior eficiência tecnológica”, defendeu.

A Embraer detém hoje produtos inovadores nos setores de aviação comercial, executiva e de defesa.

Na aviação comercial Nelson Salgado destacou o projeto dos E-jets, com grande aceitação pelo mercado, por causa do maior conforto aos clientes das companhias aéreas.

Na linha de defesa, Salgado destacou os modelos Super Tucano e o KC-390. O Super Tucano, feito para missões especiais, já foi incorporado até pela Força Aérea Americana.

Ao longo de sua história a Embraer foi responsável por superávit comercial acumulado de US$ 65 bilhões dólares, gerado com tecnologia 100% brasileira.

A grande parceria do pré-sal

Fábio CaldasO tema da exploração do pré-sal como indutor do desenvolvimento brasileiro também esteve em pauta durante a palestra de Fábio Caldas, diretor de Assuntos Externos para a América Latina da Shell. O executivo contextualizou que a empresa já está há 101 anos em atuação no Brasil e citou como destaque o projeto Libra, em parceria com a Petrobras e a PPSA, na camada marinha de pré-sal. “A necessidade de inovação tecnológica é clara quando medimos os números de Libra”, comentou, estimando que o primeiro óleo deve surgir em 2020, como produção piloto.

Caldas enfatizou a parceria da empresa com o Brasil e a relevância da mão de obra e da matéria-prima nacionais nos planos exploratórios do pré-sal. “Os avanços científicos, tecnológicos e materiais na indústria petrolífera dependem sobremaneira desse valor nacional”, afirmou.

 

Pré-sal: expectativa alta e resultados positivos

Oswaldo Pedrosa JúniorAs altas expectativas geradas pela descoberta de petróleo na camada de pré-sal do Brasil começam a se tornar realidade e a serem traduzidas em números sólidos. Foi o que sintetizou Oswaldo Pedrosa Júnior, presidente da Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), durante sua apresentação no primeiro dia de debates do XXVI Fórum Nacional.

Ele iniciou a palestra relembrando a própria história do pré-sal, frisando que a Petrobras teve 100% de sucesso exploratório nesse setor em 2013, ou seja, todos os poços perfurados no ano passado encontraram petróleo nessa camada geológica. Na sequência, o presidente da PPSA citou o novo marco regulatório do pré-sal e a inserção da PPSA nesse contexto, que julgou moderno e acertado.

“O foco atual da PPSA é na gestão do projeto Libra”, comentou Pedrosa, encerrando com a mensagem otimista de que na indústria de Petróleo e Gás jazem novas e firmes oportunidades para o desenvolvimento socioeconômico acelerado.

Índices sociais desmentem baixo crescimento econômico

Marcelo NeriAinda na sessão de abertura do XXVI Fórum Nacional e inserido no contexto de reformas e oportunidades, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Marcelo Neri, admitiu que o crescimento real de 27% do PIB nos últimos nove anos não é motivo de comemoração, se comparado a décadas anteriores.

Marcelo Neri, no entanto, aponta o crescimento da renda média na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 52%, de 78% na renda mediana da PNAD e de 106% na renda da camada social mais pobre (10% mais pobres), reflexos de um país de contrastes sociais intensos e movimentos díspares na cadeia social.

“Existe um descolamento dos indicadores sociais com relação ao PIB”, apontou Marcelo Neri, para quem esse é um fato novo, haja vista que historicamente o Brasil sempre cresceu mais com referência ao capital físico e menos no humano, ao contrário do que ocorre hoje.

O ministro acrescenta também que o crescimento da renda não parou e comemorou o fato de não haver ainda choque na oferta de trabalho, mas sim desafios na composição dos salários, o que ainda mantém lacunas entre a oferta e a procura pelo emprego no País.

“O que está acontecendo nos últimos três anos é que houve um descolamento forte do crescimento da renda com o crescimento econômico. A possibilidade de as pessoas subirem na vida a cada ano é surpreendente. Vinte e sete em cada 100 pessoas estão conseguindo crescer”, afirma Neri.

Em sua opinião, as manifestações de protesto que se repetem em todo o País são importantes, mas é preciso vencer os grandes desafios, principalmente no que diz respeito aos serviços públicos. “Há um descompasso entre a renda do trabalhador e os serviços públicos, como saúde, educação e transporte”, finalizou.

Os caminhos para as Reformas e Revoluções Brasileiras

João Paulo dos Reis VellosoO presidente do Fórum Nacional, João Paulo dos Reis Velloso, defendeu na sessão de abertura do evento a criação de grupos de ação para tirar do papel e por em andamento as reformas política e tributária no Brasil, além da aplicação deste mesmo modelo para prospectar ações que gerem oportunidades e integração social. Ele acredita que esses grupos devam ser compostos por técnicos e empresários selecionados.

Esses grupos de trabalho também teriam como integrantes a presidência da República, alguns ministros, que seriam monitorados quanto ao andamento dos trabalhos por um grupo fiscalizador, com relatórios e avaliações apresentados em intervalos periódicos.

“Esse trabalho seria avaliado a cada três meses, sendo apresentados e discutidos, para garantir a execução. O mesmo modelo seria utilizado para se apontar as oportunidades”, apontou Reis Velloso, para quem é necessário garantir a emergência de uma sociedade ativa e moderna, com melhores governos nas esferas municipal, estadual, e federal.

João Paulo dos Reis Velloso foi enfático ao afirmar que uma revolução na educação só será válida com a certeza do desenvolvimento das capacidades cognitiva, de tomada de decisões, de comunicação, de domínio do inglês e criativa, além da capacitação em tecnologia de inovação e comunicação.

Ainda como proposta de ação, Reis Velloso defendeu que o pré-sal só transformará a economia brasileira quando não apenas produzir petróleo, mas recursos que agreguem valor a toda a sociedade.

Oportunidades batem à porta do Brasil

Luciano CoutinhoO Brasil exige aperfeiçoamentos econômicos e sociais, mas está no rumo certo do desenvolvimento. Foi esse o tom da apresentação de Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), durante a palestra de abertura do XXVI Fórum Nacional. Coutinho lembrou os esforços do governo Dilma Rousseff no caminho das reformas infraestruturais e admitiu a importância de uma grande reforma tributária como mudança chave para alcançar a expansão que se deseja no País.

Sistemas digitalizados acessíveis a pequenas e médias empresas também são fundamentais para o aperfeiçoamento dos métodos de gestão e, portanto, da ampliação das oportunidades. “Temos sim capacidade de criar nosso futuro em indústrias e serviços do futuro”, afirmou o presidente do BNDES. “Mas precisamos revitalizar nossos complexos competitivos, como na mineração, no agronegócio, no setor aeronáutico, automobilístico e em diversos segmentos de bens de capital, como o de máquinas agrícolas”, acrescentou.

Como oportunidades novas e emergentes que surgem logo à frente, Luciano Coutinho lembrou as energias eólica e solar – destacando que a primeira já deslanchou uma competitiva indústria nacional, enquanto a segunda ainda aguarda impulso. “Há ainda imensas oportunidades no setor de Petróleo e Gás, em que a cadeia produtiva exige aprimoramentos nas áreas de pesquisa e desenvolvimento”, enfatizou o presidente do BNDES. “Não estou citando mudanças de paradigmas para os próximos 30 ou 40 anos, mas para os futuros cinco ou seis”, disse. “Acredito que o Brasil participará desse momento vindouro não só como usuário, mas como protagonista”, garantiu.